Unigranrio promove debate sobre experimentação animal

A Lei das Cobaias de autoria do vereador Cláudio Cavalcanti (PFL) proíbe o uso de animais com
objetivos científicos e pedagógicos, e provoca uma onda de protestos por parte da comunidade
científica do Estado do Rio de Janeiro. A audiência pública marcada para o próximo dia 20, às 10h,
deixará a Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro cercada por uma ilha de excelência, já que muitos
cientistas, funcionários e representantes da Fiocruz, SBPC, Academia Brasileira de Ciência, de
universidades e de centros de pesquisa farão pressão contra o autor do projeto e aos que estreitam
o caminho para o debate público. Segundo estudiosos da Unigranrio, o veto do prefeito César Maia
engessa avanços científicos e sufoca atividades acadêmicas, como a dos biotérios.

Um debate pioneiro sobre experimentação animal, organizado pelo Instituto de Biociências,
colocou frente a frente especialistas da Escola de Medicina Veterinária e do curso de Biologia, sob
os olhares atentos do diretor-secretário do CRBio-2, Antônio José Bianchi Nunes; e do assessor da
Reitoria Wilson Chagas. O encontro serviu para discutir o uso de animais em pesquisas. No centro
das mediações, o Comitê de Ética em Pesquisa, sob a coordenação de Casimiro de Almeida e Darci
Dusilek, compareceu com seis de seus integrantes, funcionários da Unigranrio, além de estudiosos da
UERJ e UFRJ.

No painel, os profissionais concluíram que tudo deve passar por avaliação prévia, e que
experimentação animal só deve acontecer com fins educacionais e de pesquisa, dentro de normas
éticas. O biotério, já em funcionamento, foi destacado na palestra “O biotério da Unigranrio”, por
Carlos Burity, diretor do Instituto de Biociências. 

A eutanásia foi um dos pontos desse debate, que norteou o emprego de profissionais
qualificados e métodos indolores. Para fiscalizar essa atitude, os profissionais sabem que - mais
do que normas e controles internos -, entidades de proteção animal rastreiam qualquer deslize.

Bem-estar animal - A seguir, a médica veterinária Elan de Almeida falou sobre ”
Experimentação animal: situação atual e perspectivas futuras”. Na seqüência, mais uma palestra que
despertou o interesse dos participantes: “Bem-estar animal: estresse e distresse”, com a médica
veterinária Ana Lúcia Jupa, que atua na clínica médica do Hospital Veterinário da Unigranrio. Ela
mostrou cientificamente como um animal sofre durante as fases de experimentação, quando há falta de
equipamentos, instalações adequadas, profissionais qualificados e, principalmente, ética.

O encontro terminou com a palestra “Dor e analgesia”, coordenada pelo médico veterinário João
Henrique Soares, professor da Escola de Med. Veterinária. “Após a realização de um experimento,
quanto mais rápido um animal retornar à alimentação normal e à ingestão de água, a resposta
orgânica dele ajudará naquilo que pode ser pesquisado e transportado para a Medicina humana”. João
Henrique também mostrou a necessidade de uma equipe multidisciplinar na área de experimentação
animal.

O diretor-secretário do CRBio-2, Antônio José Bianchi Nunes, elogiou o encontro e comentou o
trabalho realizado na Unigranrio: “Manter um biotério não é coisa barata. A preservação da vida
animal, tão bem defendida por alguns professores dessa casa, foi  o ponto alto desse encontro”.
Debate — Valber Frutuoso, professor de Biociências, chamou a atenção para um “osso
duro de roer” que tramita na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro. É o projeto de lei 325/05, do
vereador Cláudio Cavalcanti (PFL), que proíbe o sacrifício ou uso de animais em práticas
experimentais que provoquem sofrimento físico ou psicológico. “Toda a comunidade científica, a
exemplo da SBPC e da Academia Brasileira de Ciência, protestam e reivindicam o uso racional dos
animais. Sou contra esse radicalismo político! Como ficam as pesquisas para descobrir vacinas para
doenças como a Aids, malária, entre outras?”, advertiu Valber.

Ana Jupa complementou as declarações do professor Valber: “Acho que as ONGs estão falando
muito e, nós - que pesquisamos em nome da ciência -, precisamos nos posicionar nestas frentes de
discussão que em nada contribuem”.

João Henrique falou da hipocrisia em tempos de eleição: “Ninguém deixa de comer carne, e os
bois morrem todos os dias no matadouro, sem qualquer defensor público”. 

Irineu Machado Benevides Filho, coordenador do curso de Med. Veterinária da Unigranrio, sabe
que as mudanças são legitimadas nas urnas. “Bem ou mal, lá na Câmara dos Vereadores estão
representantes legais do nosso povo. O governo do Estado não pode fazer ingerências em áreas do
bem-estar animal! Como os coordenadores do biotério se posicionam em relação da lei em discussão na
Câmara?”, indagou.

Carlos Burity respondeu que “os docentes discutirão todas as questões levantadas aqui, na
reunião do colegiado, de forma a amadurecer e encaminhar substitutivos que fortaleçam nossos
trabalhos futuros”.

Discussões curriculares — Wilson Chagas aprovou o conteúdo do evento e deixou uma
pergunta no ar: “Quero elogiar a maneira como este assunto foi discutido. Temos que dar seqüência
aos pontos discutidos nesta tarde. Agora, para onde vamos?”, perguntou.

Irineu Benevides ensinou o caminho: “Precisamos resgatar as discussões curriculares dentro da
universidade, com vistas à integração daqueles que atuam na área da saúde. O amanhã, começa agora!”

Tramitam no Congresso Nacional anteprojetos sobre o uso de animais para atividades de ensino
e pesquisa. No Brasil, os comitês de ética em pesquisa foram constituídos a partir de
1990.

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