Roteirista de filme premiado passa a Tropa em revista

O Diretório Acadêmico de Direito (DAD) da Unigranrio realizou debate
sobre segurança pública com dois convidados importantes: Rodrigo Pimentel, (consultor de segurança,
ex-policial do Bope, roteirista do filme
Tropa de Elite, um dos produtores do filme
174, e co-autor do livro
Elite da Tropa) e
Sérgio do Rego Macedo, presidente do Instituto Brasileiro de Direito e
Criminologia (IBDC). O encontro começou com uma hora de atraso, mas a galera não arredou pé,
enquanto ouvia relatos, por parte do presidente do DAD, Pablo Fiório, sobre o sucesso da campanha
Aluno Sangue-Bom. Com o início dos trabalhos, José Carlos Buzanello, diretor da Escola de Direito,
e Sidney Guerra, professor de Direito Ambiental e Internacional, abriram espaço para que os
convidados pudessem discutir o tema “Políticas sobre segurança pública no Brasil: avanço ou
retrocesso?”.
 

José Carlos Buzanello

: “precisamos ampliar a discussão, sob uma nova envergadura de
debate, sobre segurança pública. Nosso direito de ir e vir está cada vez mais complicado, e
precisamos de saídas que podem ser discutidas aqui mesmo em nosso município. Organizaremos, em
parceria com a prefeitura de Caxias, o 1.º seminário de segurança pública e direitos humanos,
porque as discussões, até o momento, são macros, genéricas e acabam por não atender às demandas de
nosso cotidiano. No mapa da violência, os indicadores desse município registram altos índices de
homicídios e de violência doméstica”.
 

Sídney Guerra

apresentou um projeto de pesquisa à Faperj, aprovado em dezembro de
2007, sobre essa temática: “O projeto contempla participação popular no desenvolvimento de
políticas públicas, de segurança, como estratégia para redução da violência e controle da
criminalidade no Estado do Rio. Hoje, o povo vive sob a síndrome do pânico, com grades ns janelas,
trancas, evitando percursos, utilizando
insulfilm nas janelas dos carros, como falsa blindagem. Vivenciamos um clima de total
paranóia social. Essa pesquisa será iniciada a partir de março, cujos resultados serão apresentados
até dezembro desse ano. Tudo isso chegará ao governo do Estado, para que haja mudança na atual
legislação”, constata Sídney
 

Sérgio do Rego Macedo

,
presidente do Instituto Brasileiro de Direito e Criminologia (IBDC), foi o primeiro a
discursar
. O convidado adiantou que, antes do governo Collor, foram anunciados alguns
projetos ambiciosos sobre segurança pública. Sérgio Macedo lembra que o “Sistema Único de Segurança
Pública” foi o melhor deles, que se justificava, porque abrangia a questão social. “Sou contra a
unificação das polícias, mas elas podem trabalhar sob uma coordenação de ações, por meio de
comunicação integrada. Veja o exemplo dos advogados, que lá de Brasília, a OAB comunica-se
rapidamente com toda a classe, em todo o Brasil”, ensina Sérgio.
 

Aprovação diarréia

– Sérgio informa a todos que a carreira de advogado exige muita
leitura: “Essa profissão é fruto da intelectualidade. Muitas faculdades passam seus alunos de
qualquer forma, até porque causaria muito congestionamento. O aluno entra e tem que sair da
faculdade. Em alguns casos, é igual diarréia, saí de qualquer maneira”, brinca Sérgio, sob os
aplausos e os risos de todos os presentes.
 
 
Advogado incompetente não tem opinião; tem decretos – Ele rebate com mais uma
frase: “E quando o sujeito acha que sabe, com aquele ar arrogante, pensa que tem o rei na barriga.
Nesses casos, o incapaz não tem opinião, mas sim decretos”, detona Sérgio, que atiçou as
discussões, ao falar que o simples combate aos criminosos é “ação epidérmica”. Para o especialista
do IBDC, é necessário sair dos holofotes, das manchetes e dos noticiários sobre a violência: “Tudo
isso que aparece na mídia, aquilo que sangra, tal como as lesões corporais, os furtos, as mortes,
os assaltos, os estelionatos e as fraldes, mostram resultados derivados da falta de
planejamento”. Sérgio chama a atenção do público para o fato de um reitor de uma universidade, que
está sendo investigado por delitos, dentro de uma área de ensino governamental.
 

Definição de professor

– Para melhor definir o que representa ser um professor, Sérgio usou
sua verve poética: “Para dar aula não basta ler o que está escrito. O bom professor é o que cria a
cabeça, incendeia o paiol e transforma o aluno num louco”, ensina. Esse mestre do ensino jurídico
acrescenta: “Um democrata não nasce pronto, ele é feito à base de muita luta. A criança, por
exemplo, já nasce tirana, ditadora, e a gente acha uma graça. Ela está pronta para escravizar mãe,
babá e quem aparecer pela frente, até que a educação imponha os limites dela”.
 
Sérgio fecha sua palestra com muita sabedoria e bom humor: “Eu não
envelheço, nasci para ser eterno. Até aqui, tem dado certo”, conclui, brincando com a
platéia.
 

Rodrigo Pimentel ouviu atentamente seu colega Sérgio Macedo

e, ao dar início ao seu depoimento, disse que o tema proposto ao
debate poderia incluir estagnação. Todos concordam que educação é a base de tudo. O roteirista de
“Tropa de Elite” ingressou no Batalhão aos 22 anos, com a missão de comandar operações nas
principais favelas cariocas. “Entrei na polícia aos 17 anos. Cheguei ao Bope com 22 anos, o que é
um despropósito”, relembra Rodrigo. Ele deixa claro, a cada momento, sua indignação: “Nada avançou,
nos últimos 40 anos, em matéria de segurança pública. Em 2007, a polícia do Rio de Janeiro matou
1.600 pessoas. Nunca se matou tanto; nem no governo Marcelo Alencar, durante a política faroeste,
houve tanta matança”, sentencia.
 

 Benedita comandou a polícia que mais matou na história do Rio
de Janeiro


– O ex-capitão, que agora trabalha nos roteiros da futura série de
TV, na Globo, com início previsto para o final de 2008, tem absoluta certeza de que crime não se
combate com invasão, tiros, blindados e mortes durante operações nas favelas. “Mais de 90% da
população do Rio de Janeiro apóiam as operações em favelas. A maioria acredita que isso funciona, e
até acham que esse é o novo rumo da política de segurança pública. Tudo isso é uma balela, porque
Sérgio Cabral reedita as mesmas ações desse remédio, em doses mais fortes. A ex-governadora
Benedita, por exemplo, durante sua campanha eleitoral, utilizou um célebre bordão para conquistar o
voto da classe C e D: ‘mulher, preta, pobre e favelada’, e com isso ela comandou a polícia que mais
matou na história do Rio de Janeiro”, denuncia Rodrigo Pimentel.
 

Não se iludam, porque os jovens assassinados no crime são
substituídos instantaneamente


– Segundo Rodrigo Pimentel, as pessoas mortas no Complexo do Alemão –
19 pessoas no total – não representam o fim do tráfico de drogas naquele morro. Também, em outras
favelas, podem-se ver homens de poucos livros, gíria em lugar da gramática e uma ditadura imposta
por armas do calibre de um fuzil AR-15. “As pessoas mortas serão substituídas instantaneamente.
Quem se lembra do livro
Cidade Partida, de Zuenir Ventura, sabe sobre a resposta categórica do bandido Flávio
Negão, onde ele responde: ‘eu tenho 16 jovens armados na favela, com fuzis e pistolas. Tenho uma
lista de 480 jovens aguardando uma vaga, e não tenho condições financeiras de atender a essa gente
toda”, narra Rodrigo.
 

Nosso governo precisa impor uma barreira comercial que impeça o
Paraguai de comprar armas brasileiras


– E quando o assunto chega às armas, o autor de Tropa de Elite
descreve os milhares de quilômetros de fronteira seca, a falta de integração com o Mercosul e um
país vizinho que é cúmplice da bandidagem: “O Paraguai tem 7 milhões de habitantes e importou 10
milhões de armas nos últimos 7 anos, o que faz pensar que cada paraguaio tem mais de uma arma em
seu poder. Na verdade, não tem, porque as armas retornam ao Brasil”, explica Rodrigo. Ele
sugere: ”É só impor uma barreira comercial que impeça esse país de comprar armas brasileiras.
Os americanos já fizeram o dever de casa”.
 

Desigualdade social provoca violência?

– “Alguém no auditório pode dizer se desigualdade social provoca
violência? São Conrado apresenta os dois aspectos do que quero dizer. Lá, de um lado, moram o
Boninho, o Gilberto Gil e o prefeito César Maia, por exemplo, em apartamentos de 2 a 4 milhões de
dólares. Já do outro lado, em meio a valas negras e leptospirose, está a Rocinha. Apesar disso, dos
indicadores de homicídios são os menores do estado”. Rodrigo desfaz uma das perguntas com a
seguinte explicação: “No Complexo da Maré existe o maior índice de homicídio do país: 170
homicídios para cada 100mil habitantes, somente igualado pela capital da Venezuela”,
compara.
 

Desemprego

– Rodrigo pergunta a um dos acadêmicos de direito: “Você acha que
desemprego provoca violência? O Rio de Janeiro é a capital do país com menor índice de desemprego,
mas está na lista da 3.ª capital mais violenta do Brasil. Isso está nos dados da Secretaria de
Segurança Pública”.
 

Sérgio Cabral sabe que o confronto em favelas é um equívoco,
mas…


– “Eu tenho a certeza de que o governador Sérgio Cabral sabe que a
política de confronto em favela é um equívoco total. O Sérgio é inteligente, mas contenta-se com as
capas de jornal. Na semana seguinte à Operação no Morro do Alemão, verificamos as manchetes da
revista Época: ‘A polícia do Rio de Janeiro sai da inatividade e passa para a atividade’, rechaça
Rodrigo, com afirmação de quem conhece os meandros dessa corporação: “A polícia do Rio sempre foi a
que mais matou no Brasil. E muito!
Tropa de Elite retratou uma realidade de 1997. Para quem viu o filme, o que mudou de lá
para cá? É tudo a mesma coisa, podem crer”, completa Rodrigo.
 

Notícias de uma guerra particular (1995)

– O roteirista de
Tropa de Elite relembra que o documentário de Walter Salles mostrou que cocaína não nasce
no morro, que armas não são fabricadas em favela, e que pontos-de-venda controlados por gente como
Marcinho VP são a ponta de um grande esquema internacional que movimenta bilhões de dólares, e
cujos controladores estão fora dos morros. “Como nada aconteceu nos últimos 25 anos, posso afirmar
que o tema proposto pelo Diretório Acadêmico de Direito deveria ter incluído a palavra estagnação”,
sugere Rodrigo Pimentel.
 

Eu
tou no crime porque eu quero uma moto Honda Bis –


Rodrigo também destaca cenas de
Meninos do Tráfico, do rapper carioca MV Bill e de seu empresário, Celso Athayde,
resultado de 217 horas de imagens, ao longo de seis anos, em favelas de vários estados: “Neste
filme, quando perguntam a causa de tanta violência, um dos garotos envolvidos em crimes responde ‘
eu sempre sonhei com um tênis Adidas ou Nike. Eu tou no crime porque eu quero uma moto Honda Bis”,
descreve Rodrigo. Em conversa com os responsáveis por esse documentário, ouviu deles o
seguinte: ”Todo rapaz envolvido em crimes, na favela, responde que deseja ter um celular de
última geração, cordão de ouro, mochilas incrementadas, vida de bacana e coisas do gênero. O
imaginário passa à realidade até na hora de escolher as garotas mais bonitas da
favela”. 

O que o capitão Nascimento tem de Rodrigo Pimentel?

– Essa pergunta seria feita a qualquer momento – “O capitão
Nascimento é uma composição sobre cinco capitães. Nem todos os oficiais do Bope concordam com a
prática de tortura. Eu não sou tão simplista quanto o capitão nascimento. Ele carrega alguns
preconceitos. Ele simplifica as questões, mas é uma pessoa à beira de um ataque de nervos.
Questionar operações é humano. Acho que, em linhas gerais, ele é uma pessoa do bem, em conflito,
que comete crimes”, informa Rodrigo.

Milícia: pode ser a gota d’água –

Rodrigo contestou comentários de alguns moradores de favelas, que
afirmam que a presença das milícias tem trazido paz às favelas do Rio. “Eu digo a vocês, sem medo,
que a maior ameaça ao Rio de Janeiro, hoje
, não é o narcotráfico; é a milícia. Ela é menos ruim, num primeiro momento. Já no
segundo, a milícia, com deputados eleitos, passa a figurar como crime organizado. Conheço um
capitão da polícia militar que era simpatizante da milícia, até receber na porta de sua casa um
deles, com a seguinte frase: ’se não der R$20,00, vai morrer’.

Milícia: diversificação da atividade econômica

– “O narcotráfico não é organizado, em sua definição. Ele é
anárquico, caótico, a liderança não é rígida, não tem diversificação do crime e não tem simbiose
com o poder estatal. O Comando Vermelho nunca foi organizado. Já a milícia tem diversificação da
atividade econômica, desde caça-níquel, gás, transporte ilegal, gato da NET e extorsão”, compara
Rodrigo.  

Na contramão do PAC

– “A milícia é formada, em quase sua totalidade por policiais
militares, bombeiros e policiais civis. Enquanto isso, na recente visita de Lula ao Rio, vimos o
deputado estadual Natalino (DEM), indiciado pelo Ministério Público no mesmo palanque do presidente
da República. O nome dele é Natalino, mas seu apelido é “mata rindo”, na Zona Oeste. Vocês já
pensaram se daqui a quatro anos, em vez de quatro deputados milicianos, o estado passe a contar com
25 deles? A Alerj já não é muito boa, já imaginaram como ficaria a nossa situação? Talvez um
faroeste, mesmo”, conclui Rodrigo Pimentel.

Opinião de nossos acadêmicos de Direito

José Mardônio Araújo, do 8.º período

   – ”Achei que as duas palestras acrescentaram muito
ao alunos de Direito, porque em nosso dia-a-dia, deixamos de dar importância a fatos relevantes,
principalmente sobre segurança pública. Eu vi
Tropa de Elite, mas muitas das explicações dadas pelo Rodrigo Pimentel revelaram fatos
marcantes, que nos ajudarão em nossa profissão. A segurança pública só vai mudar com investimentos
na área de educação, que é base de tudo”.

Geisiane Luciano, do 1.º período

– “A realidade do filme é bastante chocante, mas revela como a
questão da segurança pública fica apenas no papel. Fiquei chocada ao ver crianças em situação de
risco, como se aquilo fosse a coisa mais normal possível. Minha sugestão para melhorar a segurança
pública começa por um aumento na verba destinada às corporações, além de investimento em educação,
para que as crianças tenham direito a uma formação adequada, à saúde, à moradia, além de direito à
cidadania. Gostei das palestras e do tema proposto ao debate”.
 
 

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