Acadêmicos de Medicina e de Enfermagem doam sangue no Hemorio

queimadura na pele e muita humilhação

Trote universitário em Santa Fé do Sul (SP) acabou dessa forma: queimadura na pele e muita humilhação

Depois das mensagens de feliz Ano Novo, férias escolares, Carnaval e da temporada de vestibulares, as universidades voltam, gradativamente, à vida normal. Normal? Em Santa Fé do Sul (a 625 km de São Paulo), duas garotas, com idades entre 17 e 18 anos, sofreram queimaduras na pele durante um trote universitário. Isso só para exemplificar, já que 2009 começou com vários tipos de trote, repletos de tortura, vingança, preconceito e procedimentos sadomasoquistas, dentro e fora dos principais centros universitários, em São Paulo, Goiás e em alguns estados do Nordeste. Na Unigranrio, trote significa solidariedade e amor ao próximo.

Já na Unigranrio, o resultado foi bem diferente: todos alunos dessa foto doaram sangue na sede do Hemorio

Câmara dos Deputados aprova lei - A Câmara dos Deputados aprovou, em tempos de Carnaval, o Projeto de Lei 1023/95, que proíbe a realização de trotes violentos ou vexatórios contra alunos do ensino superior. Bom, né? Pena que chegou muito atrasada, e repleta de irregularidades. O projeto obriga, de imediato, que a faculdade abra processo disciplinar contra estudantes responsáveis por atos de violência. Vários deputados manifestaram seu voto contrário ao texto da nova lei, que deverá ser analisada, ainda, pelo Senado

Um dos aspectos do texto recém-aprovado é a aplicação de multas de R$20 mil pela instituição, depois de comprovada participação de alunos em ações consideradas vexatórias ou violentas contra calouros. O tal dinheiro recebido ajudaria na reposição de livros em bibliotecas e escolas. A instituição terá que cancelar a matrícula dos alunos envolvidos, além de impedir o ingresso em qualquer universidade, por um ano.

Lei polêmica - Será que nossos alunos estão de acordo com esta nova lei? Se olharmos para trás, há 10 anos, lembramos da barbárie ocorrida durante um trote na Universidade de São Paulo (USP), onde ocorreu a morte de Edison Hsueh, calouro de Medicina. Naquela época, na manhã seguinte ao churrasco de recepção aos calouros da USP, o corpo do estudante foi encontrado no fundo da piscina, no campus Morumbi. Até hoje, os criminosos estão soltos e livres para outros crimes. Todos estão clinicando na capital de São Paulo. E o que dizer, 10 anos depois, dos universitários novatos submetidos à humilhação de serem amarrados, embriagados e forçados a se espojar em uma mistura composta por lama, esterco e restos de animais em decomposição. Como estudar medicina veterinária num cenário destes, ao lado de criminosos? Dê sua opinião sobre a nova lei, na área de comentários.

Depoimentos de acadêmicos de Medicina, Enfermagem e Nutrição

Para Adriano Souza de Almeida, ex-aluno de Farmácia da Unigranrio, e principal responsável pela atitude solidária do “Calouro Sangue-Bom”, cenas como as de Santa Fé do Sul, por exemplo, continuam a acontecer em todo o Brasil, “porque a impunidade é o melhor cartão de visitas. Quando iniciamos a nossa campanha cidadã na Unigranrio, há mais de 10 anos, foi para rebater o trote violento e vexatório, tal como ocorreu na piscina da USP, em 1999. Há um distanciamento dos pais e responsáveis em relação a seus filhos. A nova lei contra trotes violentos precisa ser mais rigorosa e abrangente”, critica Adriano.

Bruna Matos de Castro, caloura de Medicina/Barra: Ela é fisioterapeuta, já atuou em CTI e sabe da importância de doar sangue para hospitais: “Brincadeiras violentas, tal como a mídia divulgou recentemente, não podem ocorrer nos ambientes acadêmicos. Estou aqui porque sei que vidas serão salvas, em pouco tempo”.

Caroline Graça de Paiva, caloura de Medicina/Barra- “Todo mundo vai precisar de sangue, algum dia. Nossa atitude é um ato de amor ao próximo”.

Marcel Freitas, do 2º período de Medicina/Barra - “Os calouros e veteranos estão aderindo à nossa campanha, que começou com a ida de uma equipe do Hemorio, lá na Unigranrio/Barra. Achei importante visitar a sede dessa instituição, onde pudemos ver de perto a excelente estrutura montada para doação de sangue. Acho que os parlamentares já deveriam ter aprovado a lei contra trotes violentos, há muito tempo”, explica Marcel.

Juliana Pereira Domingues, acadêmica-bolsita do Hemorio, estuda Enfermagem na Unigranrio/Lapa. “ao doar sangue, ajudamos a quem mais precisa, que são aqueles que estão internados em hospitais públicos. Com um simples gesto, ajudamos muita gente”.

Felipe Medeiros, 3º período de Medicina, e diretor do Centro Acadêmico de Medicina Unigranrio Barra (Camub) - “Nossa tradição é doar sangue, em todas as campanhas. Vamos promover atos que aproximem os acadêmicos de seus cenários de trabalho”.

Samy Chitayat, diretor do Centro Acadêmico de Medicina Unigranrio Barra (Camub) - “Conscientizar os alunos sobre a importância de campanhas solidárias, como essa, representa um avanço social na vida de cada calouro. Não precisamos ver alguém em coma alcoólico para entendermos qual o verdadeiro papel de um ser humano que ingressa em uma universidade. Queremos integrar cada um da área da saúde e fortalecer o aluno que busca compreender a importância da profissão de médico. Na Unigranrio, somos uma grande família”.

Fábio Fortes de Araújo, acadêmico-bolsista de Enfermagem do campus Lapa - Ele trabalha no setor de pesquisa do Hemorio. “Queremos mostrar solidariedade, ajuda ao próximo e humanização desde o 1º período. Tudo que agregue valor ao cidadão é válido. A nova lei deve diminuir os casos de violência durante os trotes universitários. Vamos torcer para que tudo seja canalizado para ações positivas”.

Alex Mendonça Chaves, 7º período de Enfermagem - “A solução ideal são as campanhas de doação de sangue, de alimentos e de roupas para carentes”.

Márcia Zadi, 7º período de Nutrição - “Eu vi reportagens sobre trotes violentos em São Paulo. Onde houve uma morte dentro do campus, por violência durante a recepção de calouros. E o exemplo deveria ser diferente, já que o fato aconteceu dentro da Universidade de São Paulo, com alunos de Medicina. É lamentável que outros casos aconteçam, após 10 anos dessa tragédia, em plena capital paulista. Comemorar a entrada para a vida universitária é legal, mas deve ocorrer de forma consciente, com trote solidário. Já participei da campanha de doação de sangue e recomendo a todos os calouros que ingressaram na Unigranrio”.

Naura Faria, médica do Hemorio e chefe da seção ao doador: “A Unigranrio é uma antiga parceira do Hemorio, através de campanhas solidárias, sempre desenvolvidas por diretórios acadêmicos. Essa ajuda é importante, sempre. Cada doador pode beneficiar de três a quatro pessoas. No caso da Unigranrio, os resultados foram excelentes, principalmente no número de bolsas aproveitáveis. Quero parabenizar a todos os calouros da Unigranrio, que estão confraternizando a entrada na universidade de forma diferente, sem violência, e pensando no próximo.”.

Há falta de doadores, segundo a OMS - Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), no Rio de Janeiro, só cerca de 1,8 % da população doa sangue, quando seria necessário que 3% a 5% da população doasse sangue regularmente.

O Hemorio coleta, em média, 400 bolsas de sangue por dia, e é o centro coordenador do Estado do Rio de Janeiro que abastece com sangue e derivados cerca de 200 unidades de saúde conveniadas ao Sistema Único de Saúde (SUS), em especial as grandes emergências, maternidades e UTI’s.

O Hemorio, que fica na Rua Frei Caneca, 8 (ao lado do Campo de Santana), no Centro do Rio, funciona todos os dias, das 7 às 18h, inclusive sábados, domingos e feriados. Informações pelo (21) 2299.9442. www.hemorio.rj.gov.br.

3 Comentários

josué pereira diz: 6 março 2009 - 11:26

parabens enfermagem arrasou, participando deste evento.

Jorge Travassos diz: 3 março 2009 - 19:24

Vocês estão no rumo certo há muito tempo. pelo visto, mais de 9 anos. O governo não toma qualquer providência decente contra essa truculência e barbárie estudantil. É preciso que esse governo Federal observe aquilo que dá certo nas universidades. O exemplo da Unigranrio merece moção de aplauso. Parabéns.

Mônica Teixeira diz: 3 março 2009 - 18:32

Parabéns galera de Medicina. Vocês elevam o nome da Unigranrio, em todos os lugares. É uma vergonha saber que ainda existem trotes e procedimentos nazistas no Brasil. Concordo com os depoimentos de nossos alunos e dou nota 10 para esta atividade humanitária. A reportagem ainda compara os trotes negativos aos positivos, no caso ad Unigranrio. Bela reportagem, bem sacada, com destaque para a nove lei, pontos polêmicos que precisam ser revistos, atitudes cidadãs e exemplos de vida.

Deixe um comentário