Folha Dirigida entrevista Luciene Motta sobre internet

Nos dias atuais, é impossível pensar no mundo sem a internet. Seu advento e popularização, possibilitou a rapidez e a facilidade de acesso às informações em todas as partes do planeta. Embora ainda não seja uma realidade para muitos brasileiros, o acesso à internet cresce a cada dia que passa.

A grande rede passou a estar presente em domicílios de todo o mundo, em lares de pessoas de diferentes classes sociais. Estar conectado à rede passou a ser uma necessidade de extrema importância. Além disso, a Internet passou também a se fazer presente em escolas, universidades, empresas, facilitando o acesso às informações e encurtando o tempo gasto em pesquisas. Com isso, se tornou uma das maiores fontes de pesquisas para trabalhos acadêmicos.

Atualmente, na grande rede, podem ser encontradas as mais diversas informações dos mais diferenciados assuntos. Contudo, com tanto conteúdo disponível, fica a dúvida: como saber o que pode e o que não deve ser usado para compor os trabalhos? Até onde o aluno deve buscar dados somente utilizando a internet como fonte de pesquisa? E mais: os estudantes sabem usar corretamente a grande rede?

Para Marcus Tavares, professor e especialista em mídia, hoje já não é mais possível pensar em pesquisa escolar sem internet. “Estamos falando de uma geração de nativos digitais. E mesmo as crianças e os jovens que não têm em casa computador e acesso à internet conseguem dar um jeito de utilizá-la. Isso acontece na casa dos amigos, no trabalho dos pais, na própria escola e, muitas vezes, nas lan houses, que se multiplicam pela cidade”, comenta.

Colégios incentivam o uso adequado da grande rede

No Colégio Pedro II, o uso da internet em pesquisas escolares é incentivado pelos professores. Eles acreditam que sabendo utilizar a rede como fonte de pesquisa, os resultados podem ser muito positivos. “Tudo depende da maneira como a fonte de informação é utilizada. Sempre incentivamos o uso da internet ou o uso de qualquer fonte de informação que possa ser bem trabalhada. Nós, professores, sabemos que mesmo quando um aluno utiliza uma fonte de informação convencional como, por exemplo, uma biblioteca, ele pode copiar as informações contidas e utilizá-las de uma maneira errada”, afirma Leonardo Costa Bueno, professor do primeiro e segundo ano do Ensino Médio do Colégio Pedro II.

A preocupação com as pesquisas pela Internet entre os alunos do Ensino Médio existe, principalmente, por ser um período em que os jovens estão em formação. Neste caso, uma das maiores dificuldades está em saber identificar as fontes seguras. Com o volume de dados contidos na Internet é importante saber onde encontrar as informações corretas sobre o assunto pedido.

Para professores e especialistas o segredo está em pesquisar em mais de uma fonte. “É importante que a internet seja o ponto de partida, e não o resultado, o fim da pesquisa. A busca na rede deve ser o começo, apenas uma etapa do processo de pesquisa”, frisa Marcus Tavares.

Outro perigo encontrado nas pesquisas pela web é quando o aluno utiliza inteiramente os conteúdos encontrados na internet, ou seja, em vez de usar os dados como base para sua composição, o estudante acaba por copiar e colar tudo o que encontra sobre o assunto proposto. A utilização desta prática acarreta, muitas vezes, uma deficiência em sua formação acadêmica. “Muitas vezes, os estudantes clicam no primeiro resultado da busca, copiam e colam o conteúdo, e pronto: dão por terminada a pesquisa. Desta forma o raciocínio do aluno fica limitado.

Não há o confronto de informações, o pensamento não é estimulado”, frisa o professor Leonardo Bueno, do colégio Pedro II. Pesquisas internacionais vêm apontando para o fato de que as atuais gerações estão muito mais ligadas à web do que aos tradicionais meios de comunicação, como a televisão. Já diziam os intelectuais de décadas passadas que o problema não está nos meios de comunicação, nas ferramentas, mas sim no uso que fazemos deles. A internet não é diferente.

A pesquisa na Internet e as universidades

A utilização da web para a composição de trabalhos está presente em todos os níveis acadêmicos. As pesquisas que, antes da existência da internet, eram feitas em livros e enciclopédias, se limitam, hoje em dia, aos sites de busca. Sem o auxilio da internet, o aluno era, muitas vezes, obrigado a se deslocar até uma biblioteca, onde necessitava ler muitas coisas até encontrar o que desejava ou mesmo para selecionar o que realmente era do seu interesse.

Desta forma, além de ampliar seu vocabulário com a leitura variada, acabava por melhorar sua escrita quando transcrevia o resultado das suas pesquisas. No entanto, o uso da internet trouxe também facilidades. “Com a web, o aluno tem acesso a muito mais informação, o que permite um desenvolvimento amplo e abrangente. Além disto, a qualidade final dos trabalhos escolares ficou melhor, uma vez que o aluno passou a ter acesso a figuras, desenhos e gráficos digitais, o que permite a edição e complementação destes. O tempo de entrega destinado aos trabalhos escolares ficou menor, já que o acesso às fontes de pesquisa ficou facilitado. Entretanto, a qualidade da escrita, em muitos casos, piorou, pois a facilidade da ação ‘copiar e colar’ faz com que muitos alunos não tenham o critério de reescrever o conteúdo pesquisado com suas próprias palavras”, afirma Luciene Cristina Soares Motta, professora da escola de Ciência e Tecnologia da Unigranrio.

Para alguns professores, o hábito de buscar informações pela web, além de trazer problemas ao desenvolvimento acadêmico, traz uma outra preocupação. “Antigamente as fontes de pesquisa eram restritas, porém, fidedignas. Com a web passou a ser diferente. Ao retirar conteúdos da Internet precisamos tomar muito cuidado, já que, na grande rede, qualquer pessoa pode postar qualquer informação. Com isso, aumentam as chances de se pesquisar dados totalmente distorcidos”, frisa o professor de Engenharia da Universidade Federal Fluminense (UFF), Geraldo Tavares.

Se no ensino médio a preocupação com o uso da grande rede se encontra na formação dos estudantes, na universidade ela toma proporções ainda maiores. Sites que “vendem” trabalhos de conclusão de curso são cada vez mais comuns na internet. O especialista em mídia, Marcus Tadeu Tavares, aponta outro cuidado que se deve ter ao utilizar conteúdos da web de maneira incorreta.

“A internet traz consigo uma nova definição para o que é autoria, plágio, pirataria. Isso sem falar no conhecimento construído coletivamente, falo sobre as ferramentas do tipo wiki, que também é uma das principais fontes de pesquisa dos jovens, que, às vezes, desconhecem de que forma os textos são construídos e postados. Neste sentido, uma questão muito importante é a fonte. Os alunos devem entender o quanto é crucial citar as fontes de seus trabalhos. Em que autores, livros e sites eles se basearam para pesquisar”, ressalta o professor.

Para professores, trabalhos mais elaborados podem dificultar cópia de conteúdos

A utilização da web como ferramenta para a composição de trabalhos acadêmicos é de tanta importância que não deve, em hipótese alguma, ser descartada. Desprezar todo o conteúdo presente na grande rede seria um erro. No entanto é importante alertar para seu uso com responsabilidade. Maneiras diferentes de elaboração de trabalhos podem dificultar ou evitar a cópia das informações, segundo professores e especialistas.

“A partir do momento em que o aluno encontra na internet tudo aquilo que foi pedido pelo professor, fica mais fácil acontecer de ele copiar todo o conteúdo encontrado. É preciso elaborar bem o trabalho que será pedido, de modo a dificultar que coisas como esta aconteçam. Fazer com que o aluno, além de compor o trabalho, também o apresente, pode ser um bom começo”, explica o professor da UFF, Geraldo Tavares.

É importante que o estudante veja na internet uma aliada e não uma forma de alienação, onde ele encontra tudo o que precisa e não tem a necessidade de se aprofundar sobre o assunto. Para Marcus Tadeu, é papel do professor mostrar ao aluno que é preciso ir além da pesquisa pura e simples.

“É preciso solicitar que os alunos interpretem o que pesquisaram. Tragam suas análises e entendimentos. E mais do que isso: dúvidas e questões. É igualmente interessante que eles tragam também o processo de produção de pesquisa. Os caminhos que percorreram, por onde começaram, o que descartaram e por quê, o que chamou mais atenção, por que escolheram estas fontes e não outras, o que o portal ou site trouxe que lhe conferiu uma maior credibilidade, por que confiaram num site e não em outro e de que maneira o aluno checou as informações coletadas”, ressalta.

E completa. “Desta forma, é possível trabalhar não apenas o conteúdo proposto, mas também o processo de produção da pesquisa, o que é um ganho maior ainda. Limitar ou abolir o uso das tecnologias na escola é fechar a porta para novas práticas pedagógicas”.

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